SURF

Tem como ser bom em alguma coisa sem prática e disciplina?

Acredito que nós podemos ser bons ou medíocres sem estes dois pontos, porém, chegar à excelência, isso pode ser mais difícil. Mesmo porque a excelência é um alvo que se persegue todos os dias.

Meu esporte favorito é o surf. Desde sempre, gostei de esportes de prancha, na água ou fora dela. Não só gosto de surfar, mas também de ensinar outras pessoas e botar o vírus dos Reis Havaianos nelas. Sempre me orgulhei de que quase todos que foram à praia comigo com intenção de aprender, conseguiram pelo menos ficar em pé na prancha, nem que só por alguns segundos.

Comecei a surfar em 1977, aos 12 anos de idade e, nesse tempo todo, foram muitos que levei para o esporte. O interessante foi que alguns tinham a aptidão, o dom natural e físico para isso e sem a menor dificuldade começaram a surfar e a se desenvolver rapidamente, mas nunca ficaram muito bons, pois não tinham a paixão ou a disciplina. Outros, não tinham tanta facilidade, mas eram apaixonados e disciplinados e ficaram bons, porém nunca chegaram a ser atletas de ponta no esporte, faltava algo. Nem todo mundo pode ser o número um do mundo, mas podemos nos divertir muito no processo de sermos amadores e amantes do esporte.

Existem pessoas que tem uma aptidão maior para aprender um idioma, um bom ouvido, facilidade em imitar sons, ligar palavras, deduzir sentidos de forma natural sem muito esforço, sem medo de errar e muita vontade de se comunicar? Sem dúvida.

Mesmo estas pessoas precisam de disciplina e envolvimento com o idioma para atingir um bom nível de comunicação.

E você é capaz de desenvolver sua comunicação num segundo idioma?

Não tenho dúvidas que sim. Afinal de contas, você aprendeu a falar seu idioma antes mesmo de ir para a escola. Talvez, o que esteja precisando é reaprender a aprender.

Quanto tempo vai levar isso? Vai depender muito de sua exposição e disciplina para se expor. Conforme nossos estudos estatísticos na Paradigm Language Support, em média, um adulto vai do nível zero aos 70%, que é até onde uma boa escola levaria você. Depois disso, a aprendizagem é muito vivencial, levando em torno de 780 horas. Em quanto tempo, dias, meses, anos, vai fazer essas 780 horas? Isso vai depender de você.

Assim como surfar, se você vai uma vez por mês à praia, a sensação que dá é que está começando tudo de novo. A mesma coisa ocorre com o idioma: apesar de níveis diferentes de retenção de uma pessoa para outra, é fundamental a maior exposição possível logo no início, tirando o máximo de proveito de alguns fatores comuns aos iniciantes, entre eles, a empolgação com algo novo e a percepção de evolução rápida no início da curva de aprendizagem.

Garanto que poucas coisas são tão gratificantes como dar os primeiros passos na comunicação num segundo idioma. Dá para ver no rosto um misto de alívio e alegria, pois o outro compreendeu o que foi dito e vice-versa. E essa percepção é o gancho para a automotivação do desenvolvimento continuado.

Disciplina vai se tornando cada vez mais importante à medida que vai se atingindo níveis mais altos, pois essa percepção de desenvolvimento é cada vez menor, principalmente quando se entra no que chamo “buraco negro da evolução”, onde muitos entram e nem todos saem, o tal do nível conhecido como intermediário. Este ponto da curva de aprendizagem gera uma perigosa “zona de conforto”, pois o indivíduo consegue se fazer entender e consegue compreender razoavelmente aquilo que faz parte de seu cotidiano, o que leva a acomodação do dia a dia até que se vê em uma situação que aquilo não é suficiente e aí pode ser tarde demais, e lá se vai uma boa oportunidade.

Portanto, voltando mais uma vez a regra básica para desenvolvimento de idiomas ou do surf. Prática, mais prática e mais pratica.

Agora, onde entra a preguiça nesta história?

Não entra, pois se entrar, você não aprende nem a surfar e nem falar outro idioma.

 


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