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Felipe Chibás Ortiz
Felipe Chibás Ortiz
Felipe Chibás Ortiz

Sensibilidade digital, a revolução afetiva na internet

As  novas formas de sentir

A existência de novos meios de comunicação associada às novas linguagens hipermídia transforma também a dinâmica da comunicação afetiva individual e da sociedade, ao criar novas formas de se relacionar e sentir das pessoas e organizações na sociedade atual, até ao ponto de surgirem novas sensações causadas mediante os veículos digitais, tais como novas cores e formas inexistentes na realidade, simuladas somente pelos computadores, que por sua vez geram novos estados afetivos. Essas novas gramáticas e linguagens hipermidiáticas com uma ênfase maior na imagem são susceptíveis de gerar novos afetos, mas também podem ser geridas em determinados contextos.

Emerge desses processos uma sensibilidade digital, que pode levar as pessoas a ter práticas antes impensadas, como as de procurar namoradas e namorados em sites como o Tinder, oferecer “presentes” virtuais para estes fins e se sentirem premiados ou desprezados pela quantidade de cliques obtidos por uma postagem numa rede social. Sobretudo as novas gerações são motivadas e tocadas por esses fatores que não influenciam as outras com a mesma intensidade.

Gerir a comunicação afetiva nesse contexto; isto é planejar, organizar e implementar estratégias de comunicação em projetos e equipes que fazem trabalhos diversos, tanto no mundo físico como no virtual, é realmente algo desafiador. As pessoas envolvem-se na elaboração de mensagens com programas de edição de imagem, como o Photoshop, e modificam a própria aparência ou a dos outros de forma tecnologicamente simples e acessível a todos, mas que envolve vivenciar diferentes experiências, a produção de sentido (afetos) e não apenas de significado, e a cocriação de uma nova narrativa e subjetividades compartilhadas de maneira instantânea, como pode ser através da postagem modificada de uma foto própria ou de um amigo junto com um texto numa rede social como Instagram ou Facebook. Dessa forma, compartilham-se emoções e experiências, mais do que simples imagens, conteúdos, informações, conhecimentos ou palavras.

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Administrar emoções de novas tribos e profissões

No mundo organizacional atual, onde surgem novas profissões (como a do social mídia digital), ao passo que outras, tradicionais, somem (caixa de bancos físicos), precisa-se não apenas de conhecimento tecnológico e das novas tendências, visão mundial do setor de trabalho em que se atua e um aprendizado contínuo, mas também de habilidades afetivo-motivacionais, como ter uma boa capacidade de relacionamento interpessoal, empatia (se colocar no lugar do outro), capacidade de comunicação intercultural, automotivação, criatividade e entusiasmo pessoal, assim como equilíbrio emocional frente aos desafios e estresse quase constantes, provocado, entre outros fatores, pelo volume excessivo de informações e a necessária rapidez de resposta.

Por incrível que pareça, os afetos podem ser administrados, especialmente aqueles que são mais estáveis, como os sentimentos e o clima organizacional. É possível exercer uma monitoração e um controle sobre aquilo que sentimos e tomar as melhores decisões a esse respeito, para o nosso bem-estar e o dos outros.  Como comenta Chibás Ortiz, existem diversas ferramentas efetivas para a gestão afetiva individual e das equipes físicas e virtuais, como a Matriz da Comunicação afetiva e Matriz da Gestão Motivacional mostradas na nossa pesquisa de Livre docência, intitulada Gestão da Comunicação e da Criatividade em projetos socioculturais (2015). A forma de tratar as emoções exerce influência no modo de solucionar os conflitos; cada cultura tem uma forma específica para manifestar os afetos e encontrar soluções para os conflitos.

Na época atual, esse ambiente mudou também pela introdução de novas tecnologias, e criou novos espaços virtuais e ecossistemas de comunicação. Assim, as pessoas sentem que pertencem a determinado grupo digital e assumem e surgem novas identidades culturais e sociais que as distinguem de outras numerosas comunidades ou “tribos” virtuais existentes. Como comenta Vani Kenski (2010), criam-se novas identidades ou tribos no dizer de Michel Mafessoli (2010), que não respondem, necessariamente, a espaços geográficos e, sim, a afinidades que se compartilham no virtual. Deste modo, por exemplo, jovens que nunca se encontraram pessoalmente e vivem em países distantes, com línguas distintas, podem trabalhar numa mesma empresa com unidades em diversos lugares do planeta e cooperar mutuamente em prol de uma mesma causa social ou em defesa da natureza, elaborar um texto de maneira conjunta ou criar uma startup.

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Nova criatividade e emoções blended

Os novos e mutantes ecossistemas blended onde se misturam o mundo físico e o digital trazem consigo novas tecnologias da comunicação e da informação (NTCIs) e, como consequência, o surgimento de novas formas de se relacionar, sentir e se emocionar, como, por exemplo, quando recebemos uma mensagem ou foto via um dispositivo mobile andando pelas ruas. Esses novos dispositivos, como celulares, smartphones, tablets, junto aos canais e veículos digitais, podem provocar também novas formas de sentir. Isso é aquilo que denominamos de “sensibilidade ou sentir digital”. As emoções acompanham o ritmo e os conteúdos da Internet e nos surpreendem ao chegar. Novas sensoriedades, sonoridades, formas e cores recriados, ou que não existem no mundo físico real.

Não é incomum ver as pessoas tirarem fotos ou gravarem um filme com os seus telefones celulares num local visitado, num show, peça teatral ou exposição de artes plásticas, da aula de um professor, ao pegar instruções ou experiências que foram passadas por seu instrutor ou gestor de projeto ou na empresa, a fim de não ser necessário copiar. De imediato, podemos ver esta mesma pessoa enviar a foto para um interlocutor, via mensagem SMS de telefone celular ou com o suporte de alguma mídia social como Whatsapp, Facebook, Instagram, Snapchat, Google, entre outras. Também é relativamente frequente entrar numa escola ou universidade e encontrar muitos de seus estudantes sentados, com seus tablets e laptops conectados na rede, mesmo em países que enfrentam carência de ordem material e consequente acesso restrito a internet.

Junto a este panorama, surgem a cada dia novos olhares de públicos antes esquecidos ou negligenciados pelas empresas, agências de propaganda e publicidade, assim como as de marketing. Públicos como os das mulheres, indígenas, negros, homossexuais, pessoas com sobrepeso e não consideradas bonitas no padrão tradicional, deficientes físicos e mentais imigrantes, idosos, pessoas de países considerados periféricos e de classes sociais menos favorecidas economicamente, entre outros, ocupam cada vez mais um espaço nas redes sociais digitais e, por consequência, na grande mídia. Hoje podemos ver na web fotos postadas por agencias mostrando grandes atletas paraolímpicos que tem integrados ao seu corpo alta tecnologia, na forma de uma próteses por exemplo ou pessoas comuns portadoras de alguma deficiência física que divulgam a foto da sua próteses. Essas pessoas que antes sentiam vergonha e se escondiam, hoje sentem orgulho de ter vencido seus desafios.

Esses públicos têm acesso hoje a redes sociais digitais onde publicam suas postagens e formas de sentir e viver, assim como acessam a produtos que antes eram exclusivos. Eles precisam ser entendidos em sua diversidade e verdadeiras necessidades, para elaborar novas campanhas criativas e que sejam seu reflexo. Isto requer um novo olhar criativo e não apenas a aplicação das novas metodologias de criatividade como o Oceano azul, Storytelling ou o Design Thinking, por isso é interessante diagnosticar antes as Barreiras Culturais à Comunicação que eles enfrentam. Trata-se de gerir a comunicação com ênfase na sua modulação afetiva para obter inovação disruptiva na comunicação. Isto é uma comunicação radicalmente diferente, inovadora, que utiliza os aplicativos e tecnologias digitais e ao mesmo tempo é profundamente humana, dado que conecta ou religa, embasada na empatia (se colocar no lugar do outro), ética e confiança, os produtos e serviços criados para esses novos públicos com os criadores dos mesmos. Essa conexão emocional é a que oferece o Air Bnb. Essa plataforma  conecta as pessoas que desejam ter uma experiência turística e emoções positivas, visitando outro país, mas pagando menos que da forma tradicional com as pessoas que tem uma casa ou apartamento subutilizado e desejam ter uma outra fonte de renda.

A sensibilidade digital abrange então essas novas emoções, experiências e conteúdos que interessam e provocam engajamento nesses novos públicos, mas também novas formas de acessar esses conteúdos e abordar esses novos públicos com o uso das novas tecnologias.

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Sentir pós-humano e Economia afetiva

Hoje já se fala na “construção” de um novo ser humano ou pós-humano, o ser digital, a partir da criação de serviços e aplicativos com realidade ampliada (R.A.) e Realidade Virtual (R.V.) e outras tecnologias que permitem inserir objetos virtuais na realidade física. Isto, aos poucos, pode levar a que caia a fronteira entre o real e o virtual, entre o físico e o digital. Foi o que aconteceu no inicio da liberação do game Pokemon Go, que utiliza a RA, onde muitas pessoas sofreram acidentes de tanto procurar o bonequinho escondido e se sentiram inseridas na nova realidade criada pelo jogo.

Também cresce aos poucos a Internet das coisas. Já existem serviços que trabalham com inteligência artificial, onde máquinas que conversam entre si dão em milissegundos uma resposta impossível de ser dada por um ser humano, quando por exemplo se consulta se um individuo tem ou não solvência num banco para dar entrada a abertura de uma conta num banco. Da mesma forma, podemos mencionar o processamento de informação com os big data, que permitem processar grandes bases de dados com trilhões de informações e oferecer uma resposta imediata. O ser humano deixa de ser o centro único do universo e passa a compartilhar esse lugar com as máquinas e a natureza.

Essas novas tecnologias geram em paralelo uma nova sensibilidade digital pós-humana de emoções e experiências compartilhadas, que se acrescenta à física já existente e obriga os comunicadores, marketers, professores, instrutores, coordenadores e líderes de projetos e empresas não só a acompanharem estas mudanças e a se envolverem nas novas tecnologias, como também a procurarem novas formas de gerir a comunicação e estimularem a motivação, as quais seduzam e toquem o lado afetivo, ao explorar essas novas formas de sentir dos mais jovens. Esta necessidade é salientada também pelos profissionais do marketing, que afirmam que é necessário fazer uma nova propaganda e publicidade que atraia esse setor mais novo, mas de forma agradável, sedutora, com os apelos afetivos que esta geração procura.

Alguns desses profissionais falam ainda de uma Economia afetiva, entendida não apenas como as técnicas econômicas e de marketing que focam os elementos afetivos para comercializar produtos e serviços, tais como música, filmes, entre outros, sempre atrelados a uma vivência ou experiência afetiva, senão também pela criação de uma economia com produtos e serviços altamente tecnológicos, que respeitem profundamente o cliente, ao ter a ética e o sentimento como centro. Redes sociais em construção de novas experiências formas de ser e estar ou habitar. Essa é a verdadeira Revolução Afetiva na Internet!

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Felipe Chibás Ortiz
Felipe Chibás Ortiz
Mestre pelo Programa de Integração Latinoamericana (PROLAM), doutor e livre docente pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP). Professor e pesquisador do Centro de Estudos de Avaliação e Mensuração em Comunicação e Marketing (CEACOM) da ECA-USP. É autor de 18 livros, publicados em diversos países. Entre eles destacam o de: "M@RKETING PESSOAL.COM - Sua estratégia dentro e fora da Internet", recentemente publicado pela Atlas e o de "CRIATIVIDADE, COMUNICAÇÃO E CULTURA - Gestão de projetos educativo-culturais na Era Digital".

Os artigos aqui apresentados não necessariamente refletem a opinião da Aberje e seu conteúdo é de exclusiva responsabilidade do autor.

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