Incrível esta associação que o título deste artigo traz, mas foi o que aconteceu na semana que passou, no Rio de Janeiro. A imprensa e os posts de meus amigos utilizaram o termo Primavera na Rocinha e logo o associei à Primavera Árabe.  Nela, a onda de protestos e revoltas populares contra governos, que surgiu em 2011, provocado pela crise econômica e pela ausência da democracia, gerou a queda de quatro ditaduras, hoje em franca transição para a democracia. Infelizmente, a Síria continua sendo uma ditadura sangrenta.  Eu preferi trocar o termo para Primavera Carioca. Nesta, a origem não foi um protesto popular e sim uma guerra entre bandidos pela posse do tráfego de drogas na maior favela do Rio – a Rocinha, em paralelo ao maior festival de música do planeta, conduzido pelo publicitário e empresário Roberto Medina.

Voltando ao primeiro episódio, ainda resta à humanidade uma guerra na Síria que já deixou mais de 400 mil mortos e provocou um êxodo de mais de 4,5 milhões de pessoas do país, segundo a ONU – o maior da história recente. No segundo caso, em meados do século XX, o mundo declarou guerra às drogas que passaram a ser consideradas ilegais. Orçamentos bilionários são movimentados contra o consumo e a venda de drogas. Em alguns casos, como no Brasil, Colômbia e México, o choque entre os narcotraficantes e as forças que os reprimem, chega à beira de uma guerra civil. Fora do Brasil, de longe, comecei a ler e ouvir notícias sobre este cenário atual e analisar seus resultados.

Na Primavera Carioca, a imprensa voltou a usar o nome “favela”, considerado politicamente incorreto, durante os “doces anos cabralinos”, quando as UPPs transformaram as favelas em comunidades, como relata o jornalista Reinaldo Azevedo, em seu blog. No portal Anna Ramalho, a crônica da semana levou o título de “Primavera na Rocinha”. Ela comenta:  “ O Rock in Rio é um oásis de paz no meio desse território de guerra.  Estive lá ontem… e fiquei encantada com a beleza da Cidade do Rock, a organização, o clima de absoluta paz e toda aquela tecnologia de primeiro mundo. Roberto Medina, este visionário que há 32 anos criou o primeiro RiR, …, não desistiu, insistiu e chegou à perfeição”.   A imprensa também estampou, par a par e lado a lado, fotos e manchetes do que acontecia na Primavera Carioca. De um lado, as bandas estreladas que se apresentavam no RIR e de outro, policiais e bandidos em luta armada. Sons de Rock n’ Roll e sons de tiros de fuzis. Tudo em perfeita harmonia no layout da página do jornal, no post eletrônico ou na tela da Tv.     

“Uma Suécia dentro da Síria”, como mencionou uma amiga no Facebook. Na primeira, mais uma vez a gestão privada dá um show de organização e articulação com o poder público, mostrando que o carioca sabe fazer acontecer. Uma semana de muita agitação em torno do Rock in Rio.  E cerca de R$ 1,4 bilhão de lucro para a cidade. Na segunda, o poder público municipal e estadual, sem ação, desorientado e uma cidade em suspense e insegura com o perigo iminente, não só na Rocinha, mas também em outras comunidades, na disputa pelo refino e comércio das drogas. O governo federal é chamado a intervir, quando a população entendia que as promessas por segurança no Rio, em julho, quando do furto de caminhões em massa, eram válidas ainda.

E, em meio à crise de violência e de estagnação financeira, foi anunciado um novo calendário de eventos no Rio, analisado e referendado pela FGV nas áreas de cultura, esportes e negócios para fomentar o turismo e alavancar a economia carioca. Cinco ministros, presentes ao evento, prometeram o aporte de R$ 200 milhões no programa “RIO DE JANEIRO A JANEIRO”. O programa também conta com o apoio dos criativos e eficientes empresários Roberto Medina e Ricardo Amaral. Ao governador do Rio, presente à solenidade, eles cobraram por um Rio mais seguro. São cerca de 100 eventos que vão de um réveillon de 12 dias a concerto de baterias de escolas de samba e orquestra na praia. Mas para este programa vingue, será necessário não só a comprovação de uma segurança presente, permanente e eficiente, como também uma campanha que leve ao turismo interno e externo uma imagem mais positiva da gestão do Estado e do Município nas ações de reforço à segurança. Para que a iniciativa privada e os cariocas não sejam cobrados, pois só eventos, por melhores que sejam, não serão suficientes para atrair o turismo e, com isto, ajudar a alavancar a economia carioca. É preciso espantar de vez qualquer possibilidade de a Primavera Carioca entrar verão a dentro.


Os artigos aqui apresentados não necessariamente refletem a opinião da Aberje e seu conteúdo é de exclusiva responsabilidade do autor.