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O agro tem de produzir o que o mundo quer comprar

(Crédito: Scott Goodwill/Unsplash)

O agronegócio brasileiro só conseguirá sustentar os invejáveis índices de crescimento
registrados nos últimos 30 anos com aumento de produtividade e muito investimento
em inovação tecnológica. Tal premissa básica, repetida por vários especialistas nos
últimos tempos, necessita vir acompanhada de uma profunda mudança de postura dos
agentes envolvidos com toda a cadeia do agronegócio em relação aos mercados
internacionais: temos de ir ao encontro do que o consumidor mundial quer comprar e
não simplesmente o que podemos ou queremos vender. Essa é a nossa lição de casa
para o futuro.

Precisamos desenhar uma estratégia mercadológica muito inteligente nos próximos 10
anos, de maneira a entender perfeitamente o que vamos produzir, onde vamos
produzir, para quem vamos produzir e em que condições se dará essa produção.
Devemos lembrar que até hoje ficamos acostumados com um mercado que é
comprador e agora devemos transformar nossa mentalidade na direção de um país
vendedor. É uma mudança de postura, na qual o empresário rural tem de aproximar sua
gestão de negócios mais da forma de agir da indústria, que produz exatamente o que o
seu consumidor quer comprar e não o que ela tem para oferecer.

Tal mudança de perspectiva precisa ser adotada sem demora, uma vez que os dados
recentes de comércio internacional de commodities agrícolas tem mostrado, segundo
levantamento do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), que o
Brasil perdeu expressiva participação no mercado internacional do agro. Nossos
competidores andaram bem mais rápidos do que nós na conquista dos mercados. Ao
mesmo tempo em que tal fato é preocupante, também revela que há espaço aberto
para disputa num campo onde já demonstramos competência. Só que, cada vez mais,
essa competição se tornará acirrada, já que, em todos os aspectos, os compradores
estão bastante exigentes.

Nesse contexto competitivo, ganha relevância o rol de preocupações do agro com a
inserção, por exemplo, de conteúdos ambientais nas negociações do comércio
internacional. Dessa forma, acreditamos que as parcerias que deverão ser firmadas
agora, sobretudo a partir do fechamento do grande acordo entre o Mercosul e a União
Europeia, terão exigências crescentes para esse aspecto, assim como já ocorre nas
questões sanitárias.

Para tanto, temos de intensificar nossas ações de divulgação de todas as atividades
sustentáveis e perfeitamente amigáveis com o ambiente já realizadas pelo agro
brasileiro. Devemos lembrar que cumprimos, rigorosamente, uma das mais restritivas
legislações sobre preservação ambiental do mundo. Em nenhum outro país, sobretudo
entre os nossos mais diretos competidores, o produtor tem de preservar 20% de sua
propriedade – ressaltando que em algumas regiões do país, o rigor é ainda maior. E
isso sem nenhum benefício ou incentivo a quem preserva, o agricultor.

Em paralelo a esse trabalho de explicar melhor nossas ações, devemos ainda
concentrar esforços para cuidar da completa implementação do Código Florestal, além
de validar rapidamente o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e avançar nos Programas de
Regulamentação Ambiental (PRAs). Da mesma forma, cabe regulamentar a legislação
sobre os incentivos econômicos para a proteção da vegetação nativa, com pagamentos
por serviços ambientais (PSA´s) e a criação do Mercado Brasileiro de Redução de
Emissões.

Essas ações devem ser implementadas em caráter de urgência, pois outros países não
estão parados e intensificam políticas ambientais agressivas. A China, por exemplo,
principal parceiro comercial do agro brasileiro, prevê a transformação do país em uma
economia verde. Em 2017, o governo anunciou investimentos de US$ 360 bilhões em
energia limpa até 2020. A posição brasileira deve estar alinhada a essa visão estratégica
e de longo prazo nas questões ligadas à sustentabilidade. Isso será decisivo para o
futuro do nosso agro.

 

Marcello Brito
Marcello Brito
Formado em Engenharia de Alimentos pela UNIFEB de Barretos - SP, com especializações pelo Palm Oil Research Institute of Malaysia de Kuala Lumpur - Malásia e Federation of Oils, Fats and Seeds Association de Londres - Inglaterra. MBA em Comércio Internacional pela FIA/USP e em Gestão do Comércio Internacional pelo IAE / Universidade Pierre Mendes em Grenoble - França. Com atuação no setor de óleos vegetais nos últimos 20 anos, ocupa os cargos de conselheiro externo da EMBRAPA Transferência de tecnologia e é o atual presidente do Conselho Diretor da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG).

Os artigos aqui apresentados não necessariamente refletem a opinião da Aberje e seu conteúdo é de exclusiva responsabilidade do autor.

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