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Colunas

Na vitrine

Uma das coisas que mais me divertem no trânsito de São Paulo é observar os distraídos motoristas que mexem no nariz, como se ninguém mais estivesse olhando. Aquele cockpit envidraçado nos permite cantar em voz alta, xingar impunemente e parece nos proteger, também, dos olhares curiosos dos demais motoristas. Mas não é assim. E quando o cara é pego em flagrante, que vergonha! Só resta tentar disfarçar, o que torna a cena ainda mais constrangedora.

Assistindo à Copa do Mundo me veio a imagem do motorista distraído, mas dessa vez na frente de bilhões de telespectadores, em 4K, câmera lenta e incontáveis repetições por todos os ângulos. Todos os players, não apenas os jogadores, momentaneamente se esquecem da visibilidade absoluta e incontrolável e se comportaram como se estivessem em seus carros com o dedo no nariz. Simulam faltas, xingam, empurram escandalosamente dentro da área, pisam sub-repticiamente nos calcanhares. Tudo isso como se ninguém mais os estivesse vendo. Qual é a psicologia sem sentido que norteia tais comportamentos, misturando jogadores, árbitros e técnicos na mesma janela ridícula de visibilidade indiscreta?

Alguns casos são patológicos e, me desculpem pela falta de originalidade, o Neymar é um deles! O jogador mais caro do mundo chegou à Rússia cercado de expectativas e esperanças. Sua entourage, composta pela família, comissão técnica, “parças” e profissionais que gerem sua imagem 24/7, estavam absolutamente conscientes da oportunidade e dos riscos. E o que o cara faz? Aparece no jogo de abertura com um penteado exótico, a cara fechada e passa o tempo todo simulando faltas e dores excruciantes, em close e em câmera lenta, para que o mundo inteiro possa ridicularizá-lo e provocá-lo. E no jogo seguinte ele reage às provocações e aos memes com atitudes cada vez mais esnobes e novas firulas, ainda mais ridículas. E todos olhando e pensando: onde esse cara quer chegar? Bem, hoje, com a Copa terminada há algum tempo, já sabemos. Chegou onde não queria, com seu valor de mercado em queda livre, perda de credibilidade com os boleiros e fora da lista dos dez candidatos a melhor jogador do mundo da FIFA. O Marco Abrúcio, da Superinteressante, talvez tenha escrito o melhor artigo sobre o tema, intitulado “Neymar que me perdoe, mas não existe craque burro“.

Mas não é especificamente do Neymar que eu queria falar. Aliás, ninguém mais aguenta esse assunto! O que eu gostaria mesmo era de saber por que as pessoas querem ser famosas e ao alcançar essa meta, especialmente as celebridades, cometem desatinos que os puxam novamente para baixo? Não são só as marcas que precisam se preocupar com o posicionamento perante aos seus consumidores. Celebridades e influenciadores também precisam ter consciência de que toda ação, por mínima que seja, tem uma reação. E mais, o excesso de visibilidade precisa vir acompanhado de uma boa dose de maturidade.

Por exemplo, o Trump não me parece uma pessoa desprovida de conhecimentos, mas às vezes ficamos em dúvida. Como alguém com tamanha responsabilidade e visibilidade, em uma semana, se humilha publicamente perante ao Putin e, na semana seguinte, faz uma “quase” declaração de guerra aos aiatolás do Irã? A conta não fecha!

A minha teoria é de que a vaidade fala mais alto que o bom senso e isso vale tanto para um Youtuber, quanto para o Trump. Quando o cara está em frente aos holofotes, não ouve e não vê ninguém. É simplesmente compulsivo. É regado a autopiedade ou excesso de autoestima, carência afetiva e, principalmente, muita, mas muita necessidade de visibilidade.

Mas estima-se que cerca de três bilhões de pessoas estão olhando os jogadores durante a Copa. Será que isso não é o suficiente? É preciso aprontar alguma para as câmeras? Sim, pois entre 22 jogadores e 4 árbitros, ele precisa se destacar! As TVs do mundo têm que escolher sua imagem como a mais legal do jogo e ficar repetindo. E daí a coisa reverbera para a Internet e redes sociais. Em essência, é o famoso ‘’fale mal, mas fale de mim’’. Parece inacreditável, mas é só isso. Carreiras bilionárias são destruídas em semanas apenas por vaidade e carência de luz.

Pensem em gente extravagante, do Tiririca ao Trump, passando pelo Neymar, Lula, Psy (o cantor coreano do hit Gangman Style) e até o MC Kevinho. Pense no ministro Gilmar Mendes perseguido por brasileiros em Lisboa ou a senadora Gleisi Hoffmann com o marido na mesma situação em um museu de São Petersburgo. Ou ainda em qualquer político famoso tentando, sem conseguir, comer uma pizza com a família sem ser importunado. O que se esconde por trás de tanta insanidade? Todos são mariposas atraídas compulsivamente pela lâmpada, que ao final, queima suas asas e as destrói.

 

Augusto Pinto
Augusto Pinto
Engenheiro de formação, Augusto tem mais de 30 anos atuando no mercado de TI. Iniciou a carreira na IBM, de onde saiu para se tornar um executivo bem sucedido na indústria de software. Foi o 1º presidente da SAP Brasil, onde atuou por sete anos, e também VP América Latina da Siebel Systems. Atua há 13 anos em Comunicação Corporativa, como sócio fundador da RMA Comunicação. Augusto iniciou a RMA com a visão de auxiliar empresas de tecnologia a traduzirem seu valor para o mercado. O sucesso obtido no mercado de TI levou a empresa a outros mercados, como saúde e educação, onde se consolidou com a imagem de líder visionária.

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