PÓSHUM STARTUP REC HUM

Se a organização deseja realmente crescer como equipe de alta performance nos tempos atuais, onde se convive com as chamadas pós-verdades ou verdades inconclusas – que são mais influenciadas pela percepção emocional dos fatos do que pelo fato em si – e todos somos amplamente influenciados pelas novas tecnologias da comunicação e pela filosofia da economia colaborativa e criativa, faz-se necessário, antes de mais nada, mudarmos a postura e a forma de nos comunicar, passarmos a tratar as pessoas da equipe como colaboradores e não apenas como meros funcionários. Analisemos a seguir as diferenças que implicam cada um dos termos. São duas maneiras de enxergar o ser humano dentro da organização, que pode gerar formas de agir totalmente diferentes, segundo o ângulo priorizado pelos envolvidos.

O paradigma do robô

O paradigma ou metáfora que predomina quando usamos o termo “funcionário” é o da máquina. Estamos, inconscientemente, comparando ou sugerindo que o integrante da equipe é uma peça ou recurso inanimado, algo que apenas “funciona”, indicando que não se trata de um ser vivo e pensante; o que, em contrapartida, fica bastante claro quando se faz uso do termo “colaborador”. Muitas empresas, ainda atuam neste paradigma da máquina, mesmo que utilizando as novas tecnologias. Existem organizações que colocam um chip na pasta ou no carro de seus consultores de vendas para ver se eles cumprem os horários e se visitam todas as organizações propostas pela coordenação; sendo que o foco deveria ser se eles atingem ou não o resultado desejado, e não número de horas trabalhadas ou lugares visitados. Este sistema fomenta um clima de desconfiança.

Os principais verbos associados ao enfoque do integrante da equipe como um funcionário são os de funcionar e servir. Enquanto isso, os verbos associados ao termo “colaborador” são colaborar, cooperar, apoiar, contribuir. São termos que indicam uma postura mais presente e proativa do integrante da equipe. Trata-se de uma perspectiva que atribuiu humanidade e integridade a estas pessoas, sem que sejam qualificados como um recurso ou um objeto de uso.

Assim, um colaborador agrega sua inteligência e sua criatividade para a equipe, enquanto um funcionário agrega apenas sua força de trabalho. E, como se vê, a própria denominação limita o indivíduo, ao adotar uma conotação mais braçal.

O desafio do colaborador com pensamento em rede

O objetivo do grupo de funcionários é o de cumprir com o solicitado pelo chefe, ou seja, finalizar a tarefa. O objetivo da equipe de colaboradores é o de vencer um desafio, fazer com qualidade, criar novas oportunidades em rede. Ilustraremos essa diferença com um caso típico: foi solicitado a um funcionário que convocasse 15 clientes antigos para uma reunião. Considerando que ele não tenha conseguido falar com nenhum deles após ligações telefônicas e envio de e-mails, o funcionário iria se sentar e esperar que o líder passasse para ele novas tarefas. Quando o chefe perguntasse o que fora feito, ele certamente responderia: “já cumpri com o solicitado, liguei e enviei email para todos”. Por sua vez, o colaborador, ao não conseguir contatar nenhum dos 15 clientes, certamente insistiria até conseguir. Ao finalizar com êxito esses contatos, daria continuidade a outras tarefas. Quando o líder perguntasse sobre o sucesso em entrar em contato, ele relataria com quantos conseguira falar e com quantos conseguira de fato marcar o novo encontro, que era o verdadeiro propósito da tarefa. Também teria estabelecido uma rede de contatos, interligando entre si essas pessoas e entidades, como parte de uma estratégia de comunicação e deixando a porta aberta pra futuros contatos. Para isso, teria incorporado esses novos contatos aos seus grupos ou criado com eles um novo grupo no Linkedin ou numa outra rede social.

Entre o funcionário e o chefe ou líder formal, existe uma enorme distância social. Quase sempre, quem decide e pensa é o líder, enquanto o funcionário “funciona”, cumpre com o solicitado, faz a tarefa orientada. Mas no caso do colaborador, a distância entre ele o líder é menor, pois ele também aporta ideias, iniciativas e soluções.

A perspectiva de um funcionário é a de que seu salário seja incrementado pelo chefe, independentemente de seu rendimento e do crescimento da organização. A perspectiva do colaborador é a de crescer em todos os aspectos (financeiro, conhecimento, informação etc.) junto com a equipe, com a organização, uma vez que ele percebe que esse crescimento também depende de seu esforço.

Autoaprendizagem

Finalmente, o processo de aprendizagem e capacitação, necessário em qualquer organização, é concebido a partir de treinamentos, no caso da visão dos empregados como funcionários. Porém, quando os enxergamos como colaboradores, pensamos em plano de carreira, em capacitação e desenvolvimento de suas competências e habilidades, em seu crescimento como ser humano íntegro. É uma concepção macro de seu progresso, é o seu todo e não apenas o treinamento de suas habilidades isoladas. Aqui ocupa também um lugar especial o aprendizado autodidata do colaborador, que sabe que a organização não conseguirá proporcionar todos os cursos e capacitações necessárias para ser eficiente e eficaz. Estimular o desenvolvimento de estratégias próprias de autoaprendizagem, coaprendizagem e cocriação com colegas é fundamental.

Em resumo, pensar os integrantes das equipes como colaboradores implica em dirigir um olhar mais humano e respeitoso sobre cada um, considerando suas competências, valores, diferenças e semelhanças, enquanto o enfoque de funcionário implica em aproveitar-se dele como de qualquer outro recurso.

O pensamento reticular ou em rede

Além de tudo isso, existe outro ingrediente nesse novo paradigma do colaborador: o pensamento reticular ou em rede. Apoiando-se nas novas tecnologias, as pessoas não contam mais apenas com sua equipe ou com as equipes da sua organização para solucionar um problema. Elas pensam e buscam a colaboração de clientes, parceiros e até de pessoas desconhecidas, de qualquer parte do mundo. Com apenas a pergunta “não sei fazer tal coisa, podem me dizer como fazer?” lançada nas redes digitais (Facebook, WhatsApp e outros), a resposta, sem dúvida alguma, chegará.

A economia criativa e a equipe sem paredes

Este é o reflexo da nova Economia Colaborativa e Criativa que potencializa a produção de serviços inteligentes. Hoje muitas startups e empresas de ponta transcenderam o modelo das equipes de paredes fechadas. Essas novas empresas derrubaram e ultrapassaram as paredes internas que as limitavam a trabalhar apenas com pessoas que integravam as equipes. Elas funcionam em redes abertas de pessoas, empresas e instituições que procuram a informação e recursos necessários para realizar os seus projetos em qualquer lugar que se faça necessário.

É importante discutir e definir as palavras que são usadas no dia a dia, pois elas carregam sua semiótica e significado próprios. Nessa nova realidade de “pós-verdades”, em que o fator afetivo tem cada vez mais peso na forma de enxergar e tomar decisões sobre a realidade, existem formas de pensar e comunicar que contribuem para o engajamento dos indivíduos, enquanto há outras que os limitam. E o mais importante: essas formas de enxergar os integrantes das equipes determinam também o clima e comportamento organizacional e, por fim, os resultados e metas atingidos.

 

Nota: Texto inspirado no livro de sua autoria CRIATIVIDADE, INOVAÇÃO E EMPREENDEDORISMO, em organizações educativo-culturais na Era digital, Pueblo y Educación: La Habana, 2017.