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Década de 60. Fase de muitos conflitos políticos e transformações sociais nos EUA da Guerra Fria. Este é o contexto do belíssimo filme, “A Forma da Água”, vencedor do Festival de Veneza e superfavorito para o Oscar, com 14 indicações e vencedor como melhor filme.

Elisa, a protagonista, interpretada pela excelente atriz britânica Sally Hawkins, é zeladora num laboratório experimental secreto do governo, e é muda. Uma “princesa sem voz”, como diz a maioria dos críticos. Ela acaba se afeiçoando a uma criatura fantástica, vinda da América do Sul e mantida presa e maltratada no local, para ser estudada… E se dedica a tentar o resgate dela.

O filme traz várias mensagens, muitas reflexões. Trata de um universo mágico, repleto de alegorias, e discorre sobre a situação dos excluídos, dos que não se encaixam nos modelos mais aceitos e conhecidos.

Bem, claro que fui buscar as oportunidades de fazer analogias com a comunicação e com aspectos da liderança, temas de grande interesse e estudo para mim.

Uma afirmação já no início do filme me chamou a atenção. “Ela é uma criatura inteligente, capaz de se comunicar e de sentir emoção”. Veja que interessante: inteligência é inferida por meio da comunicação! Essa associação é concreta e real quando positiva, ou seja, quando uma pessoa é capaz de se comunicar com eficiência, concluímos que têm os pensamentos fluentes e bem encadeados. Quando negativa, porém, nem sempre é real.

A sequência do diálogo da moça com seu vizinho é muito tocante. Ela pede ajuda a ele para resgatar “a forma”, ele responde que não, porque ele não é humano. E nossa heroína diz, na linguagem de sinais, que ele não fala também, como ela, então não a vê como incompleta… Mas se é assim, ela também não seria humana. Incrível como nosso julgamento superficializa as percepções. Como é difícil aceitarmos o diferente, o imprevisível! Primeiro, porque é desconfortável. Fugir dos parâmetros significa ameaça. Segundo porque nosso crivo… Somos nós mesmos! Assim tendemos a ver o apenas diferente de nós como “errado” e tendemos a hostilizar. Cabe aqui uma reflexão importante sobre ouvirmos verdadeiramente o outro. Entendermos seus motivos, suas necessidades, nos permite abrir um canal de comunicação favorável, que leva ao entendimento.

Outra reflexão diz respeito às diferentes formas de comunicação. Nossa “princesa sem voz” não utiliza o código oral. Mas se comunica muito bem! Isso porque o grande objetivo é buscar conexão, sintonia. E para isso a comunicação não verbal genuína dá conta. Tanto que nossa heroína consegue nos trazer ainda outra lição, agora sobre liderança.  Por meio de sua comunicação, ela consegue exemplificar o modelo de liderança mais buscado e reconhecido hoje em dia: inspirar e atrair pessoas para a sua causa, motivar para a ação. Bem diferente do modelo antigo e falido do autoritário e sádico chefe da segurança do laboratório, que manda de cima para baixo, obriga, exige o protocolo sempre.

Saí do cinema com a sensação de leveza e tolerância. Com a mente aberta para as diferenças. E sobretudo com a convicção de que a boa comunicação é capaz de estabelecer pontes e permitir entendimento, sempre. Ainda bem!


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