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Estudos e pesquisas: como evitar os vieses

Enquanto pesquisadores, gastamos muito tempo certificando-nos de que eliminamos os vieses em nossos projetos. Por quê? Para que ao entregarmos nossa análise e insights, estejamos fornecendo a informação mais objetiva possível.

São muitas as fontes de viés, principalmente quando trabalhamos com pesquisas no mundo corporativo. Um primeiro grupo é denominado viés do participante. Temos que nos perguntar continuamente se existe algo em nossos instrumentos e/ou nosso processo de coleta de dados que impeça as pessoas de serem objetivas e sinceras em suas respostas. Caso não tomemos esse cuidado, poderia haver viés do participante. Além desses vieses objetivos, há outras formas de viés do participante, realmente difíceis de controlar, principalmente – o viés que provém de respostas elaboradas a partir do que pode ser chamado de desejabilidade social, aquilo que, socialmente, os entrevistados julgam como a resposta adequada (e não necessariamente verdadeira).

O segundo grupo denominado viés do pesquisador, é mais importante em minha opinião, pois tem a ver com… a experiência do profissional! Muitas vezes, uma vez obtidos os dados, pesquisadores têm certa dificuldade em evitar interpretá-los através de uma lente de suas experiências passadas. Às vezes, as experiências passadas são úteis, afinal, as coisas que aprendemos com projetos anteriores e em outras áreas nas quais já trabalhamos podem ser aplicadas para o benefício do projeto atual. Mas temos de ter cuidado com o chamado viés de confirmação: tendemos a ver em nos novos dados resultados que confirmam pontos de vista pessoal e hipóteses, antes mesmo de percebermos aquelas coisas que não confirmam isso. Há maneiras de atenuar o viés por meio da análise estruturada e rigorosa, mas é preciso muita disciplina.

Há outra fonte de viés que vem antes mesmo da realização da pesquisa. É aquele que provem das metodologia e fontes de dados que usamos. Antes de começarmos, na verdade, um projeto de pesquisa, não estaríamos sendo tendenciosos, optando pelos métodos com que temos mais familiaridade na hora da escolha? Em vez de pensar se recorrerá a entrevistas face a face ou a grupos focais, a questionários presenciais ou via web, teríamos que fazer uma série de questões. Vamos tomar o exemplo de uma pesquisa de identidade e imagem com o público interno. Antes mesmo de iniciar, seria importante saber:

– A empresa dispõe de conjuntos de dados que se pode aproveitar?
– A empresa dispõe de um conjunto de dados que permita traçar a origem dos empregados (se vieram do mesmo setor, de que empresas, diferença salarial, etc…)?
– É possível analisar os números relativos ao turn over da empresa, por exemplo, para entender as principais razões e motivações da saída?
– Qual o tempo médio de cada em cada um dos setores e níveis hierárquicos?
– Existem outros tipos de pesquisa já realizadas que auxiliem na compreensão do comportamento dos entrevistados, tais como pesquisas de clima, etc?

Hoje em dia, nossos clientes e tomadores de decisão têm muitas fontes de dados diferentes, especialistas e metodologias de pesquisa disponíveis. Então, quando um cliente vem solicita um projeto de pesquisa a um profissional, temos que ter a certeza de que estamos sendo agnósticos em relação aos dados e a metodologia, recomendar a melhor fonte e a melhor metodologia para que atendamos as necessidades de conhecimento e sustentemos nossas recomendações, mesmo se a abordagem proposta não for uma daquelas com as quais nem sempre estivemos muito confortáveis!

Cristina Panella
Cristina Panella
Doutora em Sociologia pela E.H.E.S.S. – Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (França), mestre em Antropologia Social e Cultural pela Sorbonne (Université René Descartes – Paris V, França) e mestre em Formação à Pesquisa em Ciências Sociais, também pela E.H.E.S.S., especialização em Management of Business Communication pela University of Florida (EUA). À frente de sua empresa de consultoria e curadoria é também associada senior da BMI Blue Management Institute. Tem experiência nacional e internacional nas áreas de consultoria, comunicação e marketing, pesquisa de mercado e opinião, principalmente na área de imagem e reputação. Foi professora convidada da Escola de Comunicações e Artes da USP – Gestcorp, do INPG – Instituto Nacional de Pós-Graduação, FAAP e Centro Universitário Belas Artes. Palestrante e autora de artigos e colunas nas áreas de comunicação e pesquisa, notadamente na área de metodologia, indicadores e índices de reputação.

Os artigos aqui apresentados não necessariamente refletem a opinião da Aberje e seu conteúdo é de exclusiva responsabilidade do autor.

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