Envelhecemos. Em uma geração, justo a minha, o Brasil deixou de ser um país de jovens e começou a inversão da pirâmide etária. Algo que levou décadas na Europa e no Japão, por exemplo, aqui se deu como num passe de mágica, num piscar de olhos.

Estávamos tão preocupados em construir o país do futuro que não nos preparamos para lidar com uma geração de pessoas (re)começando a vida aos cinquenta. Ou sessenta. Ou setenta. Ou oitenta…

No final do ano passado, fiquei em estado de choque enquanto assistia à apresentação de uma pesquisa de hábitos de consumo digital e me dei conta de que já estou “classificada” na penúltima barrinha de faixa etária. Depois dela, só a dos 50+… Refeita do susto, venho confirmando a exclusão que o mercado promove dessa geração de indivíduos, consumidores, que ainda têm uma vida inteira pela frente. Em todos os sentidos.

Foquemos nas marcas. Chega a ser patética a tentativa de colocar todo mundo no mesmo balaio. A começar pela classificação, que deveria ser revista. Rotular uma mulher ou um homem de 60 anos de “idoso” beira a infâmia, quando as estatísticas dizem que vamos viver até os 80, pelo menos. E quem está no limbo, entre os 50 e 60, é o quê? Um senhor ou uma senhora de “meia idade”? O que isso significa?

Tenho parentes e amigos na faixa dos 50, 60, 70, 80 e 90 anos. Quem em sã consciência acha que dá para se comunicar da mesma maneira com um alguém de 50 e outro de 90 anos? As necessidades, prioridades, anseios e desejos de cada um deles são absolutamente diferentes.

Não vejo nenhuma marca conversando com meus amigos de 60 anos, nem com a turma do meu pai, que está na faixa dos 70, muito menos com a geração da minha sogra, na marca dos 80. E quem fala para a minha avó e suas amigas com mais de 90 anos? Todos indivíduos lúcidos, ativos, cheios de vida, autonomia, planos, projetos e vontades. Que vão muito além do plano de saúde e do crédito consignado.

A maneira como as marcas personificam esses consumidores não representa ninguém que eu conheço.  E o que dizer das expressões “terceira idade” e “melhor idade”? Sofríveis, não? Recentemente, um estudo divulgado durante o 7º Congresso da Associação Brasileira de Pesquisa (Abep) identificou três grupos principais entre as pessoas maiores de 60 anos: os elegantes, as housewives e os tradicionais. Confesso que ainda estou na dúvida se é para rir ou para chorar.

Quando vamos acabar com essa miopia, quase cegueira, e passar a enxergar nossos consumidores sênior como eles de fato são? Já está passando da hora de pedirmos ajuda aos “universitários” como Jacques Lewkowicz que, aos 70 anos, vendeu suas ações na Lew Lara/TBWA e foi ser estagiário do Google…

 


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