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Barreiras Culturais, Inovação e Futuro Exponencial (parte 3) – Tudo misturado

Terceira e última parte do artigo “Barreiras Culturais, Inovação e Futuro Exponencial”. Parte 1 está neste link; parte 2, neste link.

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O novo contexto influenciado grandemente pela utilização das novas tecnologias e tendências de mercado, tanto por parte dos prospects, como pelos clientes e colaboradores, pode trazer também novas barreiras culturais à comunicação que ainda não foram objeto de pesquisa científica, como as Barreiras Tecnológicas (entendidas não como a falta de acesso a um determinado recurso de comunicação, mas como o obstáculo psicológico que dificulta ou impede a algumas pessoas o uso pleno destas tecnologias), Tendência não Ecológica (entendida como a dificuldade de algumas empresas em fazer uso verdadeiramente responsável dos recursos naturais), Rejeição de deficientes físicos (percebe-se ainda uma forte resistência a admitir funcionários portadores de deficiência física) e Posturas jurídicas diferentes (envolve os aspetos culturais da regulamentação jurídica e condições legais de um estado, país ou legislações internacionais que devem ser respeitadas por determinados setores. As leis de um país se fundamentam na sua ética e cultura. As leis trabalhistas e sobre negócios são diferentes em cada país).

As soluções para enfrentar as barreiras são diversas, mas passam pela utilização das novas metodologias de criatividade como o Storytelling, Design Thinking e Oceano azul, assim como pela competência de conectar pontos aparentemente desligados. Esse é o caminho para contornar ou diminuir as barreiras e obter a inovação disruptiva, entendida na perspectiva de Clayton Christensen, como a implementação de serviços e produtos novos com um custo menor, baseados na confiança e nos relacionamentos que atraem novos públicos que desejam um preço menor. Semelhante modelo de negócios é o que introduz empresas como o Uber, no ramo de transportes (que oferece transporte barato sem possuir uma frota de carros), Airbnb no ramo turístico-hoteleiro (que oferece albergue barato pelo mundo sem possuir uma rede hoteleira ou residências) ou a Original no ramo bancário (que oferece todos os seus serviços pela web). Assim, por exemplo, o Uber conectou, de forma inédita, motoristas que desejavam ter uma renda extra com seus carros particulares a pessoas que desejavam se trasladar rapidamente e pagar por isso um valor menor que o do taxi, com um conforto maior do que ir num ônibus, dividindo o pagamento da corrida com desconhecidos, tudo isso mediado pelo uso de um aplicativo digital. A colaboração em massa e a participação direta de consumidores para criar mudanças e revolucionar os resultados, segundo Jeremy Heimans, co-fundador e CEO da Purpose, é o que caracteriza esse tipo de inovação nos negócios, também chamada de inovação exponencial.

Isto deve se potencializar mais ainda com o crescimento da chamada Internet das coisas, no intitulado Futuro exponencial que envolve uma maior predominância das máquinas e soluções tecnológicas acessíveis que se implementam de forma rápida e com um crescimento algorítmico e exponencial para problemas humanos, segundo Ray Kurzweil, um dos consultores mais procurados sobre esse assunto.

Mas para se fazer uma inovação verdadeiramente disruptiva é necessário um profundo conhecimento da cultura local. Não resolve apenas se ter acesso aos sistemas Big data com suas enormes bases de dados, sem saber o que perguntar para essas plataformas que podem conter todas as informações referentes ao trânsito viário de uma cidade, quantidade de residências de um país ou fluxo bancário de uma região, sem saber quais barreiras culturais à comunicação existem nessa população e como conectar elementos aparentemente desconexos como são a necessidade dos potenciais clientes e públicos diversos com os que oferecem um dado serviço, utilizando a tecnologia, através de um novo aplicativo ou produto realmente inovador.

Por isso, segundo Frank Diana, outro autor destacado neste tema, a habilidade principal para navegar com sucesso no chamado Futuro exponencial, é a de conectar coisas aparentemente desconexas. Para isso, é necessário um olhar inovador e conhecimento dos diversos tipos de criatividade, assim como dos tipos de soluções aceitas para cada cultura.

É necessário partir de entender as barreiras culturais à comunicação, diagnosticar o que limita e não apenas o que facilita. Este aspecto é premissa necessária para desenvolver uma boa comunicação ou solução para um problema, ao remover obstáculos e resistências que podem dificultar ou atrasar a necessária virtualização e mudança organizacional das empresas contemporâneas. Isso ainda é mais visível numa multinacional, como por exemplo, a empresa de viagens de cruzeiro Royal Caribbean, que tem funcionários de mais de 70 países, navios que transportam turistas de diversas partes do planeta e param em portos de países do mundo inteiro. Devem respeitar a todos esses públicos e as leis de cada país onde parem seus cruzeiros, o que cobra particular importância também nos países confederados como o Brasil, onde se tem 26 estados e um distrito federal, cada um com algumas regulamentações próprias.

Aprender a lidar com essas diferenças dentro de uma organização presencial ou virtual implica no desenvolvimento de competências para conectar o aparentemente desconexo e desenvolver habilidades para a comunicação intercultural utilizando as novas tecnologias. É necessário que sejam desenvolvidas maneiras de agir organizacionalmente que respeitem e valorizem as diferenças culturais nacionais e regionais, utilizando-as como um fator criativo de sucesso nos ecossistemas físicos e virtuais. Isso terá por consequência um olhar inovador.

Abordar as barreiras culturais à comunicação e conflitos que podem se derivar delas, assim como a forma criativa específica de serem estes solucionados em cada cultura dentro do universo atual é, sem dúvida, um território ainda bastante inexplorado de estudos que pode dar início a uma nova etapa de pesquisas sobre a comunicação vinculada à cultura assim como de soluções e propostas de negócio inéditas, em um mundo cada vez mais desafiadoramente tecnológico, inovador, interconectado e multicultural.

 

Felipe Chibás Ortiz
Felipe Chibás Ortiz
Mestre pelo Programa de Integração Latinoamericana (PROLAM), doutor e livre docente pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP). Professor e pesquisador do Centro de Estudos de Avaliação e Mensuração em Comunicação e Marketing (CEACOM) da ECA-USP. É autor de 18 livros, publicados em diversos países. Entre eles destacam o de: "M@RKETING PESSOAL.COM - Sua estratégia dentro e fora da Internet", recentemente publicado pela Atlas e o de "CRIATIVIDADE, COMUNICAÇÃO E CULTURA - Gestão de projetos educativo-culturais na Era Digital".

Os artigos aqui apresentados não necessariamente refletem a opinião da Aberje e seu conteúdo é de exclusiva responsabilidade do autor.

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