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As fake news venceram

As fake news saíram vitoriosas da guerra das narrativas nestas eleições gerais. O Brasil está para escolher para a presidência da República um candidato que, assim como Donald Trump nos Estados Unidos, beneficiou-se largamente da criminosa produção e disseminação em escala industrial de mentiras, boatos e notícias distorcidas. Há vários fatores e responsáveis por esse cenário desalentador.

Primeiro, o aspecto sociocultural do brasileiro, um povo nada afeiçoado à leitura de conteúdo informativo e reflexivo. Pesquisa Retratos da Leitura de 2016 revela que 44% da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro. Esses índices não seriam de todo mal se a minguada literatura consumida fosse de qualidade, capaz de ampliar o conhecimento geral, de aprimorar as habilidades do pensamento analítico e de equipar os indivíduos de conhecimento que lhes permitisse lidar com muitos dos desafios da vida. Ter informações sobre fatos históricos, sociais, políticos e econômicos provoca reposicionamentos e contribui para a construção de um sujeito crítico e complexo dentro do organismo social. Mas quando perguntado sobre os livros mais marcantes, os títulos citados pelos brasileiros foram os dogmáticos e os ingênuos. Fazem parte da primeira categoria os religiosos, como a Bíblia, e os de autoajuda ou motivacionais, como “O Monge e o Executivo”. Na outra categoria, encontram-se a literatura erótica de “Cinquenta Tons de Cinza” e a infantojuvenil de Harry Potter.

Da mesma forma, a baixa capacidade das pessoas em interpretar o mundo à sua volta deve-se também ao hábito de consumir notícias pela internet (26%) e pela televisão (63%), em vez de se informar pelos jornais e revistas (3%), cujos conteúdos têm maior profundidade, que demandam da audiência tempo e esforço intelectual. Segundo o crítico literário Harold Bloom, ler um texto com certo grau de elaboração é um processo “extremamente ativo no qual você tem que lutar com todas as suas faculdades, mesmo se não puder compreender tudo, para tirar mais daquilo”.

Desprovidas de filtros melhor enredados, as pessoas são facilmente ludibriadas por discursos demagógicos e por mentiras. Nestas eleições, percebi empiricamente que quanto menor é o grau de instrução e de informação, maior é a probabilidade de boatos absurdos, que desafiam o lógica e o bom senso, serem aceitos como verdade entre esses indivíduos. E as pessoas se sentem confortáveis e até orgulhosas de sua desinformação. Como definiu Michiko Kakutani, em seu livro “The death of truth”, “a ignorância agora está na moda”.

A segunda razão pela qual os conteúdos maliciosos e enganosos ofuscaram a verdade e os fatos nestas eleições pode ser atribuída à própria imprensa e ao seu modelo de negócio, voltado para o lucro e para agradar anunciantes das esferas pública e privada. Para não afugentar grupos de interesse, renunciou a objetividade e o jornalismo crítico em temas importantes para a sociedade nos campos ético, social, político e econômico. Como os brasileiros estão exaustos com o estado das coisas e com a falta de perspectiva, frustrados com as instituições, que deveriam operar para promover o bem-estar social, a confiança no establishment, do qual a imprensa faz parte, foi erodida. Segundo o Datafolha, apenas 16% dos entrevistados confiam muito na imprensa.

Em países onde a mídia clássica é forte, como a Finlândia, as fake news perdem seu apelo. E é vigorosa, porque nos países escandinavos, o jornalismo é aplicado como instrumento para informar e defender os mais nobres valores sociais e o bem-comum. Como definiu o ombudsman da imprensa sueca, Ola Sigvardson,  a cobertura midiática se baseia na ética, porque “a ética é muito mais rigorosa do que as leis”.

A terceira responsável pela avalanche de fake news é a Justiça, em particular o Tribunal Superior Eleitoral. Os ministros do TSE mais do que alertados, foram municiados com dados que anteciparam os riscos de a indústria da mentira conformar a intenção de voto do brasileiro. A nação já vinha sentindo pequenos tremores sísmicos desde o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Três das cinco matérias mais compartilhadas no Twitter às vésperas do impedimento eram falsas, de acordo com o Monitor do Debate Político no Meio Digital da USP.

Os ministros não passaram da retórica. O Conselho Consultivo sobre Internet e Eleições do TSE reuniu-se apenas sete vezes desde que foi criado em dezembro de 2017. Na verdade, até agora o conselho consultivo sequer foi acionado pelos ministros. Não foi adotada qualquer medida de ordem prática, legal ou de inteligência para neutralizar o dilúvio de vídeos manipulados e notícias falsas distribuídos pelos canais de comunicação instantânea, como o WhatsApp.

Não saiu do papel, por exemplo, a promessa de criar normas de organização e procedimento. Por não ter sido normatizada, a fake news foi tratada como propaganda irregular pelo TSE. O tribunal foi omisso. Poderia ter adotado sugestões de organizações não governamentais que militam para a promoção e defesa dos direitos humanos na internet no Brasil. A Safernet é uma delas. Para a ONG, se o TSE tivesse proposto ao WhatsApp a redução de 9.999 para 499 o número máximo de grupos que pudessem ser criados e administrados a partir de um número de celular, o alcance da desinformação teria se encolhido drasticamente.

Sugestões boas não faltam. A agência de fack-cheking Lupa acredita que se fosse limitado o tamanho de novos grupos e se se restringissem a quantidade de transmissões por mensagem e o encaminhamento delas, o avanço no controle das fake news teria sido promissor.

Por fim, o próprios gestores das plataformas deveriam ter tomado a dianteira nesse sentido, o que aconteceu somente na reta final do segundo turno. O WhatsApp bloqueou milhares de contas suspeitas de compartilhar notícias falsas. Os perfis foram rastreados com ajuda de um filtro que identifica automaticamente os spams. A lista incluía números de agências que comercializaram disparo de mensagem em massa.

A proatividade veio tardia não se sabe ainda com qual reflexo para interferir na tendência eleitoral criada a partir de mentiras. Mas não podemos exigir nem devemos esperar que Mark Zuckerberg se preocupe com a saúde de nossa democracia.

Luis Humberto Carrijo
Luis Humberto Carrijo
Jornalista formado na Cásper Líbero com pós-graduação em Comunicação Empresarial na USP. Instrutor de cursos de comunicação organizacional, palestrante e articulista. Com passagens nos grupos Folha e Estado, revista Exame e TV Cultura, atua como comunicador há 25 anos. Fundou a agência de comunicação Rapport Comunica. É autor do livro “O Carcereiro – O Japonês da Federal e os presos da Lava Jato”.

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