O evento promovido dia 8 de março pela Aberje ampliou a discussão sobre equidade de gêneros. Os relatos, ilustrados por programas e campanhas, geraram reflexões que não se limitam ao feminismo, mas à construção de um mundo mais justo.

1. Narrativas

Paulo Nassar abriu o dia convidando todos os participantes a questionar a própria narrativa. Que imagens e palavras, por exemplo, utilizamos para ilustrar e compor nossos ppts e campanhas? Consideramos a diversidade na hora de planejar a programação de um evento? Será que as histórias que contamos para nós e para os outros representam nossos valores e ideais? Ana Carolina Soutello, da Natura, encerrou sua apresentação colocando a mesma questão de outra forma: nós somos cocriadores da nossa cultura e do futuro que queremos vivemos. O que cada um pode, então, fazer? Já parou para pensar nisso?

2. Estereótipos

Aposentar os estereótipos na comunicação é fundamental e é um desafio não só das empresas. A campanha Pode!, da quem disse, berenice?, é uma das poucas, se não a única, a lembrar que nem toda mulher quer, por exemplo, ser mãe. Ou gosta de se maquiar e de tatuagem. Isso não é falta de vaidade ou de feminilidade; é exercer o poder de escolha. Essa percepção está bem alinhada ao posicionamento da atriz Emma Watson, também lembrada em um dos painéis, sobre as críticas que recebeu por mostrar parte do seu corpo em um editorial de revista. Ela disse: “O feminismo é dar escolhas às mulheres. O feminismo não é uma vara para bater nas outras mulheres. Ele diz respeito à liberdade, diz respeito à libertação, diz respeito à igualdade”.

3. Respeito

Quando a gente deixa de apontar o dedo para o que o outro ou outra faz ou fez, para o que achamos certo ou errado, o que é “corporativo” ou não, as perspectivas se ampliam. Várias executivas adotaram, no passado, características mais masculinas para sobreviver no mundo corporativo. Algumas escolheram conscientemente esse caminho; outras, não. Não podemos nos esquecer de que muitas carregaram a fama de mandonas por demonstrarem ambição. Essa característica (até então) masculina virou um rótulo negativo para mulheres. A Fundação Tory Burch lançou uma campanha que associa a palavra ambição a outras como visionária, forte, poderosa e, por que não, CEO e mãe. Campanhas de awareness como essa são fundamentais para gerar diálogo e nos libertar, homens e mulheres, dos estereótipos. É o respeito à liberdade e à escolha de cada um. Se precisamos nos policiar por alguma coisa, é para não desmerecermos escolhas diferentes das nossas, no passado e no presente.

4. Características

Dentro desse contexto, a Natura foi muito feliz em apontar como características femininas o poder da intuição, a vulnerabilidade, a colaboração e a empatia. Esses valores intrínsecos, antes discriminados pelo mundo corporativo e até motivo de chacota entre amigos e família, estão sendo resgatados e já são entendidos como uma vantagem na construção de relacionamentos duradouros e na tomada de decisão dentro e fora das companhias. A empatia se faz necessária para entender também que feminismo não é o contrário de machismo, como explica Mário Sérgio Cortella, e que muitos homens também são vítimas por terem seu comportamento e expressão limitados por um padrão complemente obsoleto e injusto. Não dá para generalizar e colocar todo mundo dentro da mesma caixinha, não.

5. Autoconhecimento

Para deixar de reproduzir estereótipos, vários panelistas falaram em autoconhecimento. É preciso coragem e autorresponsabilidade para se descobrir e se revelar ao mundo. Quem disse que é fácil nadar, muitas vezes, contra a correnteza? E arcar sozinho com as consequências? É tão mais fácil fazer parte de uma rede, curtir e compartilhar, não é? Só que autoconhecimento também é o caminho para a autenticidade, uma característica cada vez mais cobrada de empresas e líderes. E nessa rota pode estar também o segredo para a vida que todo mundo quer: mais leve e feliz.

Em suma, um outro mundo está, sim, em gestação, mas nós precisamos arregaçar as mangas para a chegada dele.


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