Luís Antônio Giron

Bruno Assami

Bruno Assami, diretor-executivo da Unibes Cultural (Foto: Juan Esteves)

O gestor cultural paulistano Bruno Assami assumiu em agosto de 2015 a direção executiva da Unibes Cultural, um instituto criado em São Paulo para abrigar grandes eventos e produzir seminários e exposições que refletissem sobre questões globais como a imigração, a inclusão social e o papel das artes na reinvenção da cidadania.

Em menos de dois anos de atividade, afirma Assami, não só os objetivos da instituição foram cumpridos como o escopo do projeto inicial, ampliado. “A primeira atitude que tomei ao chegar aqui foi passear pelos arredores”, diz Bruno. “Conversei com o público e com os artistas. Descobri que as pessoas tinham demandas culturais, mas não conheciam a produção artística que estava muito perto delas. Com isso, abrimos as portas da Unibes Cultural para aproximar público e artistas.”

Segundo ele, a ideia de cultura se alterou nos últimos anos e aquilo que era reconhecido como arte consagrada não é suficiente para abarcar todas as manifestações. “No final do século XX, devotávamos a gestão cultural pública e privada a uma minoria que privilegiava a arte consagrada, erudita e elitista”, afirma. “Essa faixa que abarca 6% da população tinha acesso aos bens culturais. Ora, são as mesmas pessoas que não precisam de oferta de espetáculos e exposições. Elas viajam para o exterior e consomem sem mediação institucional. Atualmente, o gestor cultural que quer ter sucesso deve servir aos outros 94% da população.” De acordo com Assami, a Unibes Culturais promove 1.000 atrações anuais em média. O público, de 200 mil pessoas em 2016, tende a crescer 25% neste ano. Um universo em expansão que traz oportunidades para todos.

Assim, não é difícil entender por que democratização do acesso à cultura se tornou prioridade para Assami. Somente assim, diz ele, a cultura pode transformar a vida das pessoas. “Por isso, é também necessário mudar a forma pela qual abordamos a questão cultural tanto para o público como para o setor privado”, afirma. “Cultura é a melhor plataforma de comunicação para as empresas. Isso porque elas podem agregar valor a suas marcas e reforçar sua reputação pela simples interação com a nova sensibilidade global.”

Entre os patrocinadores da Unibes, constam duas dezenas de instituições estatais, bancos, empresas do setor de serviços e da indústria. “Elas são parceiras que não apenas ajudam na produção de eventos, como se envolvem com nossas ações porque estão atentas à importância da cultura em um mundo em disrupção que necessita desenvolver novos valores para um novo tempo”, afirma. “A união de todos que proporcionamos aqui é também uma forma de honrar a vocação da Unibes.”

Fundada em 1915 a partir de diversas entidades assistenciais da comunidade judaica de São Paulo, a Unibes (União Brasileiro-Israelita do Bem-Estar Social) ganhou seu nome definitivo em 1976. No início, essas associações acolhiam os imigrantes judeus, algo que se tornou um desafio durante a perseguição nazista e o Holocausto dos judeus na Segunda Guerra Mundial. Com o passar do tempo, o assistencialismo cedeu lugar a objetivos mais universais. Em 2015, a Unibes começou a atuar na área cultural para discutir como os problemas mundiais da atualidade – imigração caótica, desastres ambientais, acessibilidade e as alterações sistêmicas na economia mundial – têm afetado as artes e os sistemas de pensamento.  “Nossos eventos são universais e inclusivos”, afirma Assami. “As portas estão abertas a todo tipo de pensamento e obra de arte.”

Uma de suas primeiras medidas foi liberar o acesso do público pela entrada principal. Até 2015, o imponente prédio do Centro de Cultura Judaica em formato de pergaminho da Torá, o livro sagrado judaico, no bairro do Sumarezinho na capital paulista, contava com uma portaria que controlava a entrada de objetos e pessoas no recinto. “Esses requisitos de segurança deixaram de ser importantes quando transformamos o prédio em um verdadeiro centro de cultura para toda a comunidade”, diz Assami.

A formação de Assami em gestão cultural se deu no ambiente das artes para um público restrito que ele hoje questiona. Aos 53 anos, ele é um dos gestores de cultura mais experientes do Brasil. Desde pequeno, envolveu-se com artes e conheceu artistas de renome. Nasceu em uma família de empresários ligados à comunidade nipo-brasileira. Seu avô se fixou no Brasil depois da Segunda Guerra Mundial, fundou o jornal Diário Nippak, que servia aos leitores nipo-brasileiros. Nos anos 1960, o avô de Bruno Assami e se tornou um mecenas de artistas do Grupo Seibi, como Manabu Mabe (1924-97), Tomie Ohtake (1913-2015) e Tomoo Handa (1906-1996). Assami guarda em sua casa algumas das telas desses e outros artistas. Ele naturalmente se encaminhou para as artes. Em 1979, ainda adolescente, foi convidado pelo colecionador Pietro Maria Bardi, diretor do Museu de Arte de São Paulo, a trabalhar na organização da programação do MASP. Foi assim que se profissionalizou. Em seguida, começou a tomar parte de ações do Terceiro Setor, o que o levou a refletir sobre a importância da política e da gestão culturais. Na virada do século, ele trabalhou como coordenador de Comunicação do Itaú Cultural, durante a gestão de Ricardo Ribenboim. “Foi um aprendizado essencial”, conta. “Foi então que me dei conta de que só artes plásticas não bastavam para desenvolver a gestão cultural de uma organização. Era necessário incluir um público mais amplo e manifestações de todo tipo.”

Para Assami, a razão do êxito da Unibes Culturais reside na percepção das mudanças dramáticas que têm acontecido na sociedade, que se refletem diretamente nas atividades artísticas e intelectuais. “O maior desafio está em comunicar essas mudanças de forma produtiva em parceria com patrocinadores conscientes de que pertencem a um mundo em profundas modificações”, afirma. “Todos precisamos soltar as amarras das velhas concepções para imaginarmos um universos de possibilidades inéditas.”