15.05
Precisamos falar sobre LGBT nas organizações Na estreia do blog, uma conversa com Reinaldo Bulgarelli, do Fórum de Empresas e Direitos LGBT

 

Hoje é dia de estreia! A Aberje lança um novo portal e a coluna Mais Diversidade ganha o formato de blog.

 

A partir de agora, nossas conversas serão mais frequentes e poderemos interagir a partir dos comentários e sugestões enviadas por vocês.

 

Este é um espaço pra gente conversar sobre diversidade. O tema está por toda parte: no interesse da mídia, no cotidiano das empresas, nas discussões políticas, nas propostas de revisão de planos educacionais e na pauta dos movimentos sociais.

 

Dois assuntos que vamos acompanhar mais de perto são as políticas de diversidade no ambiente de trabalho e a visibilidade das pessoas lésbicas, gays, bissexuais e pessoas trans na comunicação das empresas.

 

Como os temas se cruzam, também falaremos sobre gênero, raça e o que mais tiver a ver com a questão diversidade.

 

Vamos compartilhar notícias, apresentar cases e ouvir gente que entende do assunto.

Campanha da ONU em defesa dos direitos LGBT no mundo do trabalho

 

Pra começar, um bate papo com Reinaldo Bulgarelli, fundador do Fórum de Empresas e Direitos LGBT. O espaço reúne, desde 2013, organizações brasileiras e estrangeiras que se encontram para discutir políticas de inclusão da população LGBT no mercado de trabalho formal.

 

MAIS DIVERSIDADE: Nas últimas eleições, o Brasil elegeu um dos congressos mais conservadores de sua história. Como convencer os empresários a falar de diversidade e a aderir a uma causa que tem sido negligenciada por parte do poder público e rejeitada mesmo por parte da sociedade?

REINALDO BULGARELLI: Não existem empresários, assim como um bloco monolítico. É possível dizer, pelo resultado que temos, que o empresariado brasileiro é muito conversador em alguns aspectos. Mas há os empresários modernos, que pensam vários temas, como direitos humanos, para fazer avançar o país e melhorar o ambiente de negócios. Eu estou vinculado, desde a primeira hora, com os movimentos de responsabilidade social empresarial, sobretudo o liderado pelo Instituto Ethos. É ali que encontramos uma voz empresarial mais sintonizada com os desafios do século XXI.

MD: É comum se falar em diversidade e inclusão sob a ótica dos resultados. Ou seja, associando as práticas a benefícios para as organizações, mas a questão vai além disso. Quais são os principais resultados alcançados com a valorização da diversidade? Como mensurá-los? Além de lucro propriamente dito, o que mais a empresa tem a ganhar?

RB: É importante não negar esse lado do lucro que a empresa obtém com a valorização da diversidade. É verdade, mas não é tudo. Eu costumo dizer que valorizar a diversidade é o que deve ser feito, no sentido de seguir princípios básicos de direitos humanos. Não deveria estar em discussão se é bom ou não valorizar a diversidade porque o contrário é desrespeito aos direitos humanos. Valorizar a diversidade é também a coisa certa a ser feita porque fortalece a identidade organizacional no que isso tem de mais básico. Nem toda empresa tem uma boa definição de identidade (missão, visão e valores), mas há empresas que encontram nela os motivos mais interessantes para pensar em diversidade como uma maneira de ser, de fazer as coisas e de se relacionar com diferentes públicos. Por fim, valorizar a diversidade é a melhor coisa a se fazer porque é evidente que ao se engajar num projeto que respeita as pessoas, a empresa demonstra capacidade de dialogar com o mundo, a realidade e as tendências. É o melhor a ser feito porque adiciona valor de muitas maneiras, mas todas elas estão relacionadas a saber lidar melhor com a vida, a vida como ela é, o que é essencial para qualquer negócio.

MD: Como você avalia a presença das pessoas LGBT na publicidade brasileira?

RB: Tímida, para não dizer inexistente. Há momentos especiais e que chamam muito a atenção, mas devemos caminhar para termos uma presença menos “exótica” e mais rotineira, afinal, as pessoas LGBT estão em muitos lugares, compram, têm família, casa etc. Se pensarmos no tema há cinco ou dez anos atrás, claro que já estamos um pouco melhores.

MD: Você percebe coerência entre discurso e prática, ou seja, empresas que têm mostrado LGBTs em suas campanhas costumam ter políticas de diversidade bem desenvolvidas?

RB: Essa é uma das razões de existência do Fórum de Empresas e Direitos LGBT. É muito prejudicial para uma empresa e para a causa dos direitos LGBT a empresa lançar uma campanha e não ter qualquer consistência ou vínculo da marca com as práticas organizacionais em geral. É prejuízo porque a crítica virá, sobretudo dos setores religiosos e fundamentalistas, correndo o risco da campanha ser retirada pela própria empresa caso não seja algo verdadeiro. Não gostaria que essa exigência de consistência fosse interpretada como uma “ideia paralisante”, como costumo chamar isso de fazer parar tudo enquanto nada for perfeito. É importante saber-se imperfeito, mas buscar coerência, consistência e práticas consequentes.

 

Leia mais sobre o assunto na próxima edição da revista Comunicação Empresarial, que vai abordar as questões de gênero e LGBT na comunicação. Disponível em junho, no site da Aberje.


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