16.05
Governança e sustentabilidade

Por Marcelo Rothen

Não há como permanecer indiferente aos prejuízos que a mudança do clima e uma lógica econômica pautada pelo consumo descontrolado vêm impondo à biodiversidade e à vida humana no planeta. Com a diluição do protagonismo dos governos na execução de políticas públicas nas últimas décadas, as empresas e organizações sociais são chamadas a assumir maior responsabilidade na busca por soluções para os desafios globais.

A muitos líderes pode ainda soar estranho, e mesmo contraditório, que uma organização consiga, simultaneamente, gerar lucro para sustentar suas atividades e contribuir para superar os grandes problemas de nossa época, mesmo que por meio de ações restritas aos limites de sua comunidade.

No entanto, considerada sob uma perspectiva mais ampla – “sistêmica” – esta dúvida se revela um falso dilema, e encobre a pista que pode conduzir todo um ecossistema organizacional a uma realidade mais próspera e sustentável. Tal pista se chama governança.

Máxima transparência

Nas corporações, a governança se traduz, em última instância, como normas e institutos criados para garantir a máxima transparência e confiabilidade na divulgação de resultados, políticas de compliance e de gestão de risco, e medidas que permitam avaliar, em cada decisão, os interesses das partes afetadas pelas atividades da empresa.

Mais que uma opção ou modismo, a governança é necessidade premente num mundo de demandas socioambientais inadiáveis e riscos crescentes para a atuação empresarial.

Ao ampliar o horizonte de sua análise de riscos, a governança permite à empresa antecipar e assimilar o custo de externalidades – efeitos indiretos de suas decisões – decorrentes de  operações presentes e futuras. E ao estabelecer medidas que garantam a integridade das práticas empresariais e a prestação de contas à sociedade, impõe uma adequação a regulamentações e exigências legais cada vez mais rigorosas, reduzindo o risco de multas e evitando a abertura de brechas para a corrupção.

Acima de tudo, porém, as boas práticas de governança tendem, no longo prazo, a estabelecer um ambiente de confiança entre as partes interessadas em suas atividades – “os stakeholders” – dando forma e consistência a um capital que, a rigor, não tem preço: a reputação.

Se por muito tempo repetiu-se como um mantra que a geração de valor para os acionistas ou proprietários era a maior – se não única – finalidade de qualquer negócio, atualmente a Responsabilidade Corporativa, princípio basilar da governança, condiciona a geração de valor à sua partilha com toda a sociedade, por entendê-la como tributária desta relação social. A reputação é um indicador e o principal resultado deste compromisso.

Planeta, o principal stakeholder

Reputação é sinônimo de credibilidade: facilita a obtenção de licença social para a empresa operar, reduz o custo de financiamentos, atrai investidores comprometidos com negócios sustentáveis e, de quebra, permite despertar um sentido de propósito entre os membros ou empregados da organização, derivado da sua orientação para o compartilhamento de valor com a sociedade.

Toda uma nova geração de organizações, chamadas de Future Fit, B-Corps, Evolutivas ou Teal, entre tantas outras designações, guarda em comum esta clareza de propósito, uma razão de existência que é social e ambientalmente orientada, e tem no planeta seu principal stakeholder. Como milhares de organizações privadas, públicas ou sem fins lucrativos em todo o mundo, alinham o eixo principal de sua estratégia de negócios a objetivos que visam impactos em escala global, e que encontram sua melhor síntese nos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, os ODS.     

Organizações que transcenderam o “ego” empresarial, movidas por princípios e práticas de governança, e que voltaram seu propósito para causas relevantes sob o ponto de vista da sociedade, exibem os atributos requeridos para atuar no ambiente complexo e repleto de incertezas que caracteriza a nova economia: são flexíveis, resilientes e inovadoras – mas, principalmente, têm consciência de que atuam em mercados cujos atores e instituições interagem em rede, onde a centralização de poder não é mais a regra, e onde a cultura de inovação aberta e estabelecimento de parcerias vem se provando imprescindível para a sobrevivência do seu empreendimento e, no longo prazo, da própria vida humana no planeta. No Brasil, o alinhamento de empresas aos ODS é fomentado pela Rede Brasil do Pacto Global, segundo este modelo.

 

Marcelo Rothen é jornalista, integrante da equipe de comunicação da Companhia Paranaense de Energia (Copel) e da Comissão de Engajamento e Comunicação da Rede Brasil do Pacto Global (CEC) . 


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