26.06
“Comunique sua causa.” Seria esse o 18º ODS?

Por Marcelo Douek e Henry Grazinoli*

Michele tem 10 anos de idade, mora em um bairro nobre de São Paulo e todos os dias ela lembra seus pais que eles precisam tomar banho mais rápido para não acabarem com a água do planeta.

Dona Cida, 67 anos, trabalha como cozinheira de um restaurante em Ilhéus, no litoral da Bahia e vive lembrando seus colegas que existem formas mais eficazes de lavar a louça, sem desperdiçar tanta água.

João Felipe é diretor de sustentabilidade de uma empresa de bebidas que investe boa parte do seu budget em um programa de acesso à água para comunidades distantes.

Você já parou pra pensar o que essas pessoas têm em comum? Elas estão diariamente trabalhando para o ODS 06 – água e saneamento. Cada um à sua maneira, colaboram para a agenda 2030 da ONU, possivelmente a maioria sem nem saber o que são os ODS.

Ao mesmo tempo, existe algo a mais em comum: além de falar com seus interlocutores (pais da Michele, colegas da Dona Cida e do João Felipe), eles não falam com praticamente mais ninguém sobre o tema da água. Não discutem água em círculos sociais, muito menos divulgam a causa. João Felipe certamente tem uma pequena rede de contatos que fala sobre o tema, mas dentro de uma “bolha”. Michele e Dona Cida encontram dificuldade em achar interlocutores e se sentem pouco empoderadas para debater.

Para que este tema chegue com mais frequência aos círculos sociais de Michele, Cida e João Felipe, a grande barreira a se superar é a da comunicação. É preciso que este assunto esteja presente com constância em suas redes sociais, na conversa da vizinhança, nos jantares entre amigos. Ter contato constante com o tema, ver mais pessoas falando a respeito e saber que uma organização internacional do porte da ONU pensa e trabalha sobre a causa é um baita empoderamento para que as pessoas levantem mais suas bandeiras. E colaborem diretamente com a transformação da sociedade.

Já pensou o que aconteceria se essas três figuras (e milhões de outras espalhadas pelo mundo) conhecessem mais e começassem a falar sobre os ODS? E se todas as empresas colocassem os ODS em suas pautas de comunicação? A grande barreira dos ODS ainda é awareness (conhecimento), muita gente não tem ideia do que se trata essa pauta. Claro que não temos a pretensão de criar o 18º ODS, mas pense conosco: se “Comunicar sua causa” estivesse na pauta de quem trabalha pela agenda 2030 de forma tão forte quanto os outros 17 ODS, certamente já estaríamos em outro patamar em termos de conhecimento, engajamento e movimentação em torno da agenda.

O empreendedor social Mohammad Yunus cunhou o conceito de “Ficção Social”. Segundo ele, tudo o que construímos enquanto sociedade, de modelos econômicos a tecnologias, um dia fez parte de nosso imaginário. Se podemos imaginar, podemos trabalhar para construir. Ou seja, quanto mais os ODS fizerem parte do imaginário da Michele, de sua família e amigos da escola, da vida da Dona Cida, de seus colegas de trabalho e de seus vizinhos, das ideias de João Felipe e seu grupo de amigos e colaboradores, mais perto estaremos de realizar as transformações necessárias. É preciso comunicar para povoar o imaginário de todos sobre a agenda 2030.

Então, fica a provocação: o quanto de energia você gasta pelo ODS em que atua? O quanto de energia você gasta para comunicar o trabalho que você faz pelo ODS? Quanto mais você (e toda a sociedade) falar sobre isso, mais rápido a agenda 2030 vai ser efetiva e nos levar na direção de um mundo melhor.

Marcelo Douek e Henry Grazinoli são co-fundadores da Social Docs, produtora especializada em contar histórias de impacto social e parceira oficial do Pacto Global no projeto o Futuro que a Gente Quer, uma webserie de minidocs que conta histórias ligadas aos ODS e a Agenda 2030.


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