03.12
Agenda 2030: uma abordagem sistêmica

Por Romeu de Bruns

A medida que a Agenda 2030 das Nações Unidas se torna mais conhecida, mais e mais pessoas começam a entender que se trata de algo que vai muito além de 17 objetivos isolados: um sistema interconectado que permite repensar a economia, as relações humanas e nossos impactos sobre o planeta.

Durante a Conferência do Clima em Katowice, a COP 24, no ano passado, tive a oportunidade de assistir a uma apresentação sobre a Agenda 2030 que me permitiu ter uma noção sobre essa abordagem holística dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

A apresentação foi feita por Marc Buckley, membro da rede de expertos do Fórum Econômico Mundial e um ativista engajado na promoção dos ODS. Especialista em modelagem de sistemas dinâmicos, ele advoga que as organizações em geral precisam adotar os 17 ODS em sua integralidade.

Para isso, Buckley parte de conceitos apresentados pelo livro “Os Limites do Crescimento”, de 1972, e das 169 metas da Agenda 2030. Em sua apresentação, ele mostrou, por exemplo, como as empresas podem elaborar planos de negócio de longo prazo, a partir de uma modelagem matemática que considera ODS e inclui não apenas o mercado, mas também o território, as comunidades e os ecossistemas em que estão inseridas.

Escolher apenas um ou outro ODS, explicou, significa que metas importantes da Agenda 2030 relacionadas a um determinado negócio podem não estar sendo observadas. No médio ou longo prazo, isso pode levar uma empresa a uma situação de insustentabilidade e, eventualmente, ao fracasso.

Além disso, Buckley observou que trabalhar com os ODS de forma isolada não irá produzir a inovação e a escala que a Agenda demanda para mudar o modelo civilizatório atual, que sinaliza para o colapso dos ecossistemas que, por sua vez, configuram a base da economia mundial – e, em especial, da produção de alimentos.

Itaipu

Na Itaipu Binacional, embora ainda não tenhamos um modelo matemático tão completo como o proposto por Buckley, a empresa já vem trabalhando com uma abordagem sistêmica sobre os ODS, especialmente os que compõem a dimensão “Planeta” – um dos cinco “Ps” da Agenda 2030 e que agrupa os ODS 6 (Água potável e saneamento), 13 (Ação contra a mudança global do clima), 14 (Vida na água) e 15 (Vida terrestre).

Isso se dá pelos esforços que a empresa empreende, desde a construção da usina, para a formação de um vasto cinturão verde ao redor de seu reservatório. Esforços que são reconhecidos pela Fundação SOS Mata Atlântica, por exemplo, que aponta que a empresa é a principal responsável pela regeneração desse bioma no Paraná, chegando a quase 30% da recuperação observada no estado nos últimos 30 anos.

Além disso, os mais de 100 mil hectares de áreas protegidas pela binacional têm o status de Reserva da Biosfera, chancela dada pelo Programa “O Homem e a Biosfera” (MaB, em inglês) da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Serviços ecossistêmicos

Esse conjunto formado por refúgios, reservas e pela faixa de proteção do reservatório permite que a natureza preste os chamados serviços ecossistêmicos, tais como a fixação do carbono (contribuindo para o enfrentamento das mudanças climáticas), a retenção e infiltração de água no solo (favorecendo a qualidade e a disponibilidade de água na região), além do controle da erosão e do assoreamento, polinização, dispersão de sementes, regulação do microclima, entre outros benefícios para a biodiversidade.

Nessas áreas, a Itaipu desenvolve uma série que de ações e projetos de conservação, desde a restauração florestal, à criação de espécies ameaçadas de extinção e à reintrodução de espécies da fauna. Isso contribui para reestruturar as florestas locais e a repor serviços ecossistêmicos impactados pela implantação da usina.

Esses serviços melhoram a segurança hídrica, ou seja, a garantia de água em quantidade e qualidade suficientes para atender aos múltiplos usos do reservatório (produção de eletricidade, pesca, lazer, abastecimento de três municípios e aplicações na agropecuária), além de contribuir para aumentar a vida útil do reservatório.

E impactam diretamente na atividade fim da empresa, que é a geração de energia limpa e renovável. Ou seja, se relacionam também com o ODS 7. Além disso, considerando que o entorno do reservatório abriga um dos principais polos agropecuários do país, esses serviços ecossistêmicos beneficiam também a produção de alimentos, mostrando, na prática, que os ODS são realmente interligados.

Valoração

Recentemente, a empresa participou de um grupo de estudos coordenado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) que, por sua vez, produziu a primeira nota técnica de Valoração de Serviços Ecossistêmicos no Brasil.

Com base nessa valoração, um estudo preliminar considerou os investimentos realizados pela Itaipu em ações como o monitoramento de sedimentos, de micropoluentes e da qualidade da água, o manejo da vegetação da faixa de proteção do reservatório e a gestão por bacias hidrográficas na região.

Enquanto os investimentos realizados ao longo de sete anos totalizaram cerca de 8 milhões de dólares, a estimativa de valoração da provisão de água nesse período, por exemplo, foi de mais de 700 milhões de dólares, um retorno quase 90 vezes superior, mostrando que a valoração dos serviços ecossistêmicos pode ser uma ferramenta convincente para a tomada de decisão em relação ao projetos relacionados à dimensão “Planeta” da Agenda 2030.

Vale destacar que essa inter-relação entre serviços ecossistêmicos e os objetivos que compõem a Agenda 2030 são a temática principal de dois eventos conjuntos da Itaipu com o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU, (UNDESA), no espaço ODS da COP 25, em Madri (no dia 7, às 9h30; e no dia 9 às 11h).

 

Romeu de Bruns é jornalista formado pela UFPR, com experiência em diversas redações e assessorias de imprensa. Vencedor do Prêmio Esso – Regional Sul, atualmente trabalha na Itaipu Binacional.


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