Quando menino, no Sertão de Minas, onde nasci e me criei, meus pais costumavam pagar a velhas contadeiras de histórias. Elas iam à minha casa só para contar casos. E as velhas, nas puras misturas, contavam histórias de fadas e de vacas, de bois e reis. Adorava escutá-las”. J. Guimarães Rosa ( entrevista para o jornal O Estado de São Paulo, 1968)
Esta expressão tão inspiradora somente poderia ter sido criada pelo escritor mineiro Guimaraes Rosa, para desenvolver uma poética própria, desenvolvida entre a cultura oral e escrita, moderna e arcaica, erudita e popular.
Puras Misturas é o conceito que situa a iniciativa de criação do Pavilhão das Culturas Brasileiras, pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, com o objetivo de dar visibilidade às preciosas coleções da Missão de Pesquisas Folclóricas e do Museu do Folclore, dirigidas por Mario de Andrade e Rossini Tavares de Lima. Mas, dar visibilidade não no sentido de cristalizar ou folclorizar a cultura popular, mas resgatar e contemporaneizar, as diferentes culturas presentes em nossa sociedade. Pretende ser um espaço de encontro, diálogo e até mesmo de contraposição entre estas culturas.
O pré-projeto conceitual para o Pavilhão das Culturas Brasileiras foi realizado em 2008 pela design Adélia Borges, com colaboração da arqueóloga e museóloga Cristina Barreto, entre outros. E quem está fazendo a adaptação do edifício histórico criado por Oscar Niemayer, que já abrigou a segunda Bienal de artes de São Paulo e obras de Duchamp e Paul Klee, entre outros, passando depois a sede da Companhia de Dados do Município de São Paulo- é o escritório de Pedro Mendes da Rocha.
Retomando, Puras Misturas, termo aparentemente paradoxal, tema da exposição de inauguração do Pavilhão, em outras palavras, o (re) lançamento de sua pedra fundamental, nos trará a oportunidade de ver, por exemplo, a arte indígena rupestre dialogando com os grafiteiros urbanos.
A exposição histórica de Lina Bo Bardi “A mão do povo brasileiro”, inaugurada no MASP em 1969, serviu como inspiração do conceito deste “cartão de visitas” do Pavilhão das Culturas; que tinha como vanguarda na época mostrar o valor da diversidade cultural brasileira tanto expressa de forma material, quanto imaterial.
Virou uma prerrogativa comum atualmente as empresas se intitularem como “brasileiras”, ou anunciarem o seu “compromisso com o Brasil”, ou ainda se reconhecer na “diversidade de seu povo”. Mas o que efetivamente as confere este carimbo? Em que as suas ações de comunicação se baseiam para servir de tinta deste carimbo?
Ora, apoiar institucionalmente e financeiramente este Pavilhão das Culturas, por exemplo, é uma oportunidade de associar a marca de uma instituição ou empresa efetivamente ao seu compromisso com o seu consumidor, fornecedor, parceiro, cliente, funcionário e com as comunidades aonde atua, pois estará contribuindo para pesquisar, registrar e salvaguardar a diversidade cultural brasileira, reconhecendo o valor da cultura material e imaterial das culturas da população brasileira. E, sobretudo, estará dando reconhecimento e dignidade aos criadores e protagonistas desta diversidade, ou seja, aos seus próprios públicos de interesse.
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